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sábado, 26 de junho de 2021

Castle High, o Retorno da Espada - J. O. Aquino

Arthur Crytus é príncipe de Meridian, um reino que comanda outros reinos menores. Quando muito novo, seu pai desapareceu em circunstâncias misteriosas e sua mãe, Merida, assumiu o comando como Rainha Regente. Arthur ainda era uma criança teimosa e que não entendia muito bem suas responsabilidades como príncipe, quando numa noite de festa, seu reino foi atacado e totalmente devastado. Ainda sem saber se havia sobreviventes ao ataque (incluindo sua própria mãe), Arthur foge com a ajuda de um cavaleiro amigo da família na companhia de sua amiga para Andrômeda, um colégio magicamente protegido, onde aprenderia a ser um espadachim ou um arqueiro de elite. 

Já nos primeiros dias, Arthur faz diversas amizades nos dois grandes grupos de alunos do colégio e é escolhido como o representante dos espadachins para domar dragões  no torneio interno de habilidades de Andrômeda. Entre as provas das disciplinas do colégio, os treinos para o torneio, os dramas adolescentes e professores agindo de formas curiosas, aos poucos informações sobre quem atacou o seu reino e por qual motivo vêm à tona, conectando Arthur e os leitores numa trama profundamente cheia de mistérios.

Castle High já é uma fantasia de sucesso e o próprio processo de escrita de Jonas Aquino já a diferencia das demais. Com poucos recurso, o escritor escreveu a trama no lápis e papel, usando computadores emprestados para digitalizá-la, e, com a qualidade da trama, a fez best-seller na Amazon. Ainda vêm dois volume por aí para nos fazer mergulhar de vez no mundo de Arthur Crytus e nos explicar timtim por timtim todas as minúcias dessa história fantástica.

O Vazio da Forma - Andrew Oliveira

Frey é um jovem artista deprimido, que após passar por uma diversidade de traumas na infância e adolescência, se vê com a chance de ouro de deixar sua cidade natal Praia de Pérola e estudar artes em uma renomadíssima escola no Porto das Oliveiras. Lá, conhece e se casa com Jacinto, um homem da burguesia de Porto. Juntos, adotam Lírio, que misteriosamente desaparece numa visita ao circo. Frey então começa uma jornada interna e externa para superar seus traumas não superados ou resolvidos, reencontrar sua filha e a si mesmo.

"O Vazio da Forma" é uma obra linda, profunda e emocionante. Andrew não poupou nada, nem a si mesmo, para escrevê-la. É possível captar muito do autor em Frey, principalmente de sua espiritualidade. Os cenários presentes e passados são lindamente descritos. Vez ou outra somos brindados com sutilezas e analogias, que são colocados aqui e ali, de forma despretensiosa, para deleite dos leitores mais atentos. O passado de Frey, sua família que deixou para trás, seus amigos e o acontecido em sua cidade natal (a grande onda) voltam constantemente para acalentá-lo ou atormentá-lo, Frey é tomado pela "sombra" e se vê novamente num buraco que parece fundo demais. O autor também brilhou ao inserir a religião de Frey como um elemento fundamental da narrativa, podendo ser considerada uma personagem da obra.

O personagem Jacinto, pessoalmente, foi o que mais me marcou. Ele não é uma pessoa deprimida, mas vive e ama uma pessoa deprimida. Jacinto aprendeu a lidar com a depressão de Frey, que não consegue captar a pureza e tamanho do sentimento que Jacinto tem por ele. Muitas vezes, Frey questiona o amor de Jacinto, achando que a qualquer momento ele irá deixá-lo por não aguentar mais viver ao lado de um deprimido. Mas Jacinto não vai, pois Jacinto ama Frey. E foi por meio de Jacinto que eu mesma comecei a ver o amor que as outras pessoas têm por mim de maneira diferente. Eu, que já tive depressão (e as vezes ainda tenho umas recaídas), sei o quão difícil é lidar comigo nesse estado e, assim como Frey, duvidava do amor das pessoas que insistiam em ficar ao meu lado. Mas Jacinto me fez ver que elas não estão comigo por pena, mas por amor.

O primeiro romance de Andrew Oliveira é uma obra pungente e delicada, que nos faz pensar e repensar a todo instante nossas próprias crenças e autolimitações. Que nos coloca dentro do corpo de Frey, tanto para as situações de alegria e prazer, quanto para as situações de dor e desespero, mas termina com uma mensagem linda de amor, perdão e reencontro consigo mesmo.

Holanda e o Mundo Fantástico - Beatriz Faria

Holanda é uma menina introvertida, que muitas vezes se sente e se vê sozinha na sua sala no colégio, mas que se encontra e se diverte nas histórias dos livros que lê. Antes de um feriado, a professora lhe passa a lição de ler um livro curioso, sem título nem capa, ao redor do qual existe uma aura de grande mistério.

No mesmo dia, após emprestar o livro da biblioteca municipal, Holanda se dirige ao seu quarto para cair dentro dessa nova história. Literalmente.  Holanda se transporta do mundo onde vive para  Ilha, um reino para lá de diferente, onde seres humanos possuem poderes especiais e um rei corre perigo. 

Após ser deposto pela Cuca num golpe de estado, o Rei se reúne com seus amigos: o curupira Paco, o saci Sá, a mula sem cabeça Diamantina, o lobo guará Dornélio e a mais nova membro da trupe, a humana Holanda. A menina então tem que usar toda a sua coragem e a sua criatividade para enfrentar o mau, aprendendo e ensinando diversas lições ao longo dessa aventura rica e belamente ilustrada. 

Holanda e o Mundo Fantástico é o primeiro livro publicado de Beatriz Faria. Eu recomendo muito a leitura, especialmente para quem tem crianças pequenas em casa. É uma obra pequena de tamanho, mas, assim como a autora, enorme no seu potencial encantador, delicadeza e quantidade de coisas boas para ensinar.

O Amor nos Tempos do Cólera - Gabriel García Márquez

É muito difícil falar de "O Amor nos Tempos do Cólera", ou mesmo introduzir a obra, sem dar grandes spoilers da narrativa para quem nunca se informou sobre a história. Eu mesma peguei o livro para ler totalmente no escuro e, garanto a você, que a experiência é muito mais emocionante dessa forma. Mas, para aqueles que não se importam de ter um pouco das surpresas reveladas, e para aqueles que sabem que a escrita de Gabriel García Márquez é muito mais na vibe "aproveite a viagem" do que "chegar ao destino", prossigam na leitura dessa postagem sem medo.

"O Amor nos Tempos do Cólera" é a história de um quase triângulo amoroso. Digo "quase", pois não há o relacionamento dessas três pessoas de fato acontecendo ao mesmo tempo, apesar de os sentimentos estarem ali. 

O livro narra as vidas de Fermina Daza, Dr. Juvenal Urbino e Florentino Ariza. Fermina e Florentino viveram em sua adolescência um amor imensurável, porém virtual, por meio de incontáveis cartas, sem nunca de fato terem conversado ou se olhado nos olhos. O pai de Fermina, não aprovando a relação, a manda numa tortuosa viagem ao interior da Colômbia para a casa da prima, a fim de que esquecesse a existência de Florentino.

A viagem foi um insucesso, uma vez que só serviu para reavivar ainda mais a chama da paixão dos adolescentes, que trocavam telegramas clandestinos. Porém, após muitos meses, quando Fermina volta pra casa, ela e Florentino finalmente se encontram frente e a frente e Fermina tem uma baita desilusão ao perceber que Florentino era feio de doer.
 
Após o devido pé na bunda, Fermina se casa com Dr. Juvenal Urbino, um rico de família aristocrata, e Florentino foca a sua vida na carreira e nos prazeres carnais. Apesar de ser um relacionamento controverso, Fermina se recusa a se divorciar de Dr. Juvenal e viver sua vida como quisesse, o que impensável para uma moça de classe alta no século XVIII. Até que décadas depois, o Dr. morre e Florentino aparece para reconquistá-la.   

De uns anos para cá, eu tenho lido muitas obras do Gabriel (o plano é ler toda a obra do autor) e cada uma delas me encanta de uma maneira diferente. A beleza de "O Amor nos Tempos do Cólera" não é o realismo fantástico fascinante de "Cem Anos de Solidão", mas justamente o contrário: é a crueza e a honestidade com quem o autor retrata os processos de amadurecimento e envelhecimento do ser humano. Gabo aborda com sinceridade o início das limitações físicas e mentais que nosso corpo apresenta com a idade, além de retratar o amor e o sexo na terceira idade. Além disso, o autor ainda explora e questiona tradições o tempo todo, trazendo luz aos incômodos e até infelicidades profundas e duradouras que estas podem trazer na vida das pessoas. 

Gabo também me incomodou nesse livro. Confesso que nunca li sobre o histórico do autor para saber o que se justifica, mas achei duas situações narradas muito controversas. A primeira foi o descontentamento de Firmina ao descobrir que seu marido tinha uma amante negra. A personagem demonstra asco pela situação e diz inclusive que a amante tinha cheiro de gente negra. Pesadíssimo. A segunda foi uma "namorada" de Florentino, que é descrita como uma criança que ainda estava no colégio, enquanto Florentino já tinha mais de 70 anos. 

Apesar desses dois fatos, "O Amor nos Tempos do Cólera" é uma obra muito bonita, que nos faz acreditar no amor e de que tudo na vida tem uma hora certa para acontecer e que não devemos apressar os processos. Com certeza merece ser relida algumas vezes durante a vida para relembrar esses ensinamentos.

Dom Casmurro - Machado de Assis

Bento Santiago, mais conhecido como Bentinho, cresceu vizinho à Maria Capitolina Pádua, ou Capitu. A famílias Santiago e Pádua sempre tiveram boa relação e, a relação de seus respectivos filhos aos poucos evoluiu de ingênuas brincadeiras de padres feitas por crianças católicas entediadas, até se descobrirem apaixonados na adolescência. Apesar de ambos serem muito queridos nas famílias alheias, havia um tremendo empecilho para esse amor florescer: Dona Glória havia prometido seu filho Bentinho ao seminário, após uma diversidade de gestações infrutíferas e, José Dias, amigo do falecido pai de Bentinho, começou uma verdadeira jornada para garantir que Bentinho e Dona Glória não descumprissem a promessa feita a Deus.

Sem poder mais evitar, Bentinho foi mandado ao seminário a muito contragosto e lá conheceu Ezequiel Escobar. Instantaneamente tornaram-se amicíssimos pois tinham muito em comum, principalmente o fato de não quererem ser padres. Distante de Capitu a maior parte do tempo, com raras visitas feitas aos finais de semana, Bentinho começou aos poucos a demonstrar ciúmes injustificados de sua amada, que vão desde um homem aleatório que passa de cavalo pela rua até cair numa espiral de loucura achando que está sendo traído por ela e Escobar ao mesmo tempo, afastando paulatinamente de si todas as pessoas que o amavam.

Eu nunca me importei em rever filmes ou reler livros. Creio que a cada vez que você revisita uma obra, ela se torna outra, pois você é outro. Dom Casmurro era um daqueles clássicos que eu precisava reler na fase adulta, para pegar outras nuances da narrativa. E, após ter morado no Rio de Janeiro por muitos anos na juventude, foi uma delícia passear pelos seus bairros no século XIX, captar e poder vivenciar um pouco do que era a então capital do Brasil, tão diferente do caos de hoje. 

Independentemente do roteiro, sempre achei a escrita de Machado maravilhosa e inspiradora. Mas tenho que confessar que Dom Casmurro não foi a minha obra preferida do autor. O primeiro ponto do desagrado é que dois terços do livro tratam do desenvolvimento do imbróglio do seminário, que foi resolvido em um simples parágrafo. A resolução para o impasse, ao meu ver, foi bem bizarra, um Deus Ex Machina muito do mambembe. Além disso, achei difícil gostar do narrador e protagonista, Bentinho. Achei um cara muito do chato e mimado, com sentimentos obsessivos. 

Não acho, de forma alguma, que tenha sido objetivo de Machado fazer a gente gostar de uma pessoa como Bentinho. Muito pelo contrário, acho que a intenção da história foi mostrar as possíveis consequências de ser uma pessoa tão chata e mimada quanto ele, mas utilizando do ponto de vista da pessoa desagradável. É... está aí mais uma prova de que Machado foi inovador, genial e provocativo de novo. Não falha nunca.